Painel Temático 06

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Silva, Ricardo Jerónimo - Bissaya Barreto e a configuração de um discurso político-sanitário

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Autoria Silva, Ricardo Jerónimo  (CES, Universidade de Coimbra)
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Título Bissaya Barreto e a configuração de um discurso político-sanitário
Sessão PT06. Discurso y salud

Resumo

Com esta comunicação pretendemos dissecar e discutir as diversas vertentes que compuseram a campanha político-sanitária posta em prática, na região de Coimbra, ao longo de cinco décadas, por Bissaya Barreto. Este médico e político, próximo de Salazar e referência do Estado Novo na região Centro, enquanto Presidente da Junta de Província da Beira Litoral, pretendia implementar uma lógica sistémica e multifacetada na sua acção, expressa primordialmente na rede de edifícios e instituições cuja construção promoveu, mas que se revelava também evidente nos diversos formatos discursivos que utilizava.

Mais do que a simples implementação de estratégias de Medicina Social, tratava-se de um autêntico projecto de Sociedade assente numa visão eminentemente política, pelo que o papel desempenhado pela propaganda revelava-se crucial. Esta tocou uma miríade de áreas que abordaremos: a escrita (artigos, livros, brochuras), expressa em diversas publicações, destacando-se o “Diário de Coimbra” e “A Saúde”; cartazes e distribuição de panfletos; a fotografia de obras, tanto em postais de venda ao público, como em diversas publicações; exposições de difusão da sua Obra; a rádio, através da Emissora Nacional, para o anúncio de efemérides e transmissão de discursos apologéticos; o cinema, com a produção do documentário institucional “Rumo à Vida”; e, de algum modo, as visitas e inaugurações às suas obras, acompanhado de autoridades políticas, onde proferia discursos marcadamente doutrinários. O propósito desta rede propagandística era a profilaxia, baseada na educação das massas populares, buscando a efectiva e abrangente alteração de hábitos individuais, a consciencialização social e a acumulação de capital humano.

Com estes canais de comunicação (que procuravam encontrar eco nos órgãos de decisão, nos profissionais técnicos que consigo trabalhavam e, naturalmente, na população) pretendia-se veicular a defesa dos mecanismos através dos quais Bissaya Barreto ambicionava intervir na realidade da região por si politicamente dominada, fazendo a apologia do caminho a percorrer em direcção a gerações de cidadãos saudáveis e robustos, fisicamente úteis e moralmente sãos. O cenário permanente deste caminho eram os estabelecimentos por si impulsionados, em certa medida também eles contentores de fortes mensagens, que funcionavam como micro-dispositivos não só de cura mas também de poder, sendo este exercido directamente sobre os corpos e as suas máculas (físicas e espirituais).

Iremos igualmente explorar o papel genérico do Médico, enquanto figura central no desenvolvimento, ao longo do século XIX, de estratégias sociais que abrangiam o campo do poder, do controlo e da moralização, analisando as premissas lançadas por Michel Foucault (“Vigiar e Punir”, “O Nascimento da Clínica”), segundo as quais esta figura se assumia como elemento agregador do conhecimento necessário para a prática da planificação sanitária que ultrapassava as questões meramente clínicas, conduzindo assim a uma autêntica medicalização discursiva da Sociedade.